Segunda-feira, 4 de Março de 2013

"Os portugueses fascinam-se com o Estado" afirma César das Neves (vídeo-entrevista)

 

"Os portugueses fascinam-se com o Estado"

 

 

 

João César das Neves, que acaba de lançar "As 10 questões da Recuperação", obra que surge na esteira de "As 10 questões da Crise" (2011, D. Quixote), é um fiel crente dos ciclos económicos. Incontornável nome do mundo da economia e da Universidade Católica Portuguesa, entidade onde dá aulas e onde obteve a licenciatura e o doutoramento, César das Neves explica porque é que esta crise não significa "o fim do mundo". Mostrando-se muito sensível em relação aos sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses - e de ele próprio considerar que, por exemplo, "os impostos estão para lá do razoável" - César das Neves afirma, a propósito da sétima visita da 'troika', que este é o momento em que "vamos começar a tratar das mudanças na máquina". Tendo assinado recentemente uma petição que diz que as leis sociais aprovadas nos últimos seis anos provocaram um retrocesso social (que potenciou a crise económica), César das neves acredita que temos um problema grave que é o ataque à família. Sobre o Estado, afirma que "Ninguém quer que o Estado desapareça" mas que o mesmo tem que ser restruturado.

Em entrevista, César das Neves afirma que "Se Portugal correr bem, a Europa consegue olhar para um sucesso num grupo dos que estão a correr mal". A entrevista pode ser vista na íntegra no ETV e lida no site do Económico.

 

Estamos ou não condenados a uma geração de sacrifícios?

Não, não estamos. (Enfim, podemos estar se quisermos. Mas depende de nós). Eu acho que é importante clarificar as coisas: de facto Portugal, neste momento, está debaixo de uma barragem de contra informação, de influências, porque há muitos grupos a serem apertados pela austeridade e esses grupos estão a passar para a opinião pública uma enorme quantidade de imagens, que têm como finalidade defender os seus interesses.

Portanto há um choque enorme de objectivos diferentes - é normal nestas situações de crise que isso aconteça. Agora a consequência disso é que as pessoas "andam aos papéis". As opiniões são as mais variadas, as mais intensas, as mais dramáticas. Muita gente anda muito assustada.

Portanto, de facto, o objectivo deste livro é simplesmente esclarecer as pessoas. Acalmar as pessoas. Ver que a situação não é fácil, não vai ser fácil, ninguém está a dizer que será uma saída milagrosa. Agora ninguém sabe fazer previsões a uma geração. Nós podemos fazer previsões para o próximo ano, para os próximos dois anos. Esta é uma crise de situação conjuntural. Portanto estamos a falar de uma situação onde nós começámos a ajustar em Abril de 2011 (fomos, aliás, o último país a fazer isso.) Agora, ninguém está a prever que o ajustamento demore cinco anos. Estamos a prever que demore um, dois, três. Portanto já temos disto um ano e meio. Falta mais outro tanto. Pode ser mais cedo, pode ser mais tarde. Nestas alturas, a incerteza é muito grande. Agora falar , neste momento, "de uma geração" (de sacrifícios) é simplesmente manipular as pessoas.

É verdade que há outras coisas que estão a acontecer no mundo e (eu) também tento organizar isso, essas questões, que são mais vastas. E isso está ligado com outras coisas e vai levar a outras ameaças, que em todas as épocas sempre foram ameaças. Mas não será mais nem menos do que em outros tempos.

 

Há um ano e meio foi quando lançou o seu primeiro livro desta colectânea. O que mudou neste ano e meio?

Eu escrevi o livro ("As 10 Questões da Crise") antes da 'troika' chegar. Nem sequer sabia que a 'troika' vinha. Foi uma surpresa. A 'troika' já veio depois do livro sair mas o livro tinha sido escrito antes. E o meu objectivo foi também de esclarecimento. Nessa altura existia uma crise, que era mundial. A Lehman Brothers tinha ido à falência e à volta disso tinha existido uma enorme quantidade de confusões. E o objectivo era também explicar essa crise. E depois também a outra crise, que Portugal levou por tabela. Nós não tivemos muito envolvidos na primeira (na crise de 2008, dos bancos americanos) mas fomos estrelas da segunda (da crise de 2010: a crise das entidades europeias, dos orçamentos europeus). E dessa segunda crise fomos umas das estrelas junto com a Grécia e com a Irlanda. Mas não estávamos no estado em que estamos hoje. A situação é completamente diferente. De facto em ano e meio mudou muita coisa, essencialmente porque finalmente começamos a tomar juízo.

 

Recuperação. O que está encima da mesa para recuperarmos?

A primeira fase, que foi aquela que tivemos a viver, foi a de estancar a sangria. Estávamos numa situação de descontrolo completo. Fomos de joelhos à ´troika' porque fomos o último país do mundo a perceber que havia uma crise e que era preciso apertar a sério.

Estamos agora a chegar à segunda fase, que está nestes dias em grande debate: Que é a de começar a alterar a estrutura. Tapar um buraco, uma sangria, já fizemos três vezes ao longo dos últimos dez anos. Nós tivemos três crises orçamentais: uma com o engenheiro Guterres, no final do século passado, outra com o dr. Durão Barroso, em 2003; e outra, em 2005, com o engenheiro Sócrates. Esta é a quarta. Das três anteriores pensei "vêm ai sacrifícios mas depois resolve-se". Mas era mentira. E era mentira porquê? Porque nunca se chegou a esta segunda fase. Cortaram-se salários, aumentaram-se impostos, que é sempre a maneira fácil de tapar o buraco no curto prazo, mas nunca se chegou a cortar no Estado. Será que é desta? Ninguém sabe.

 

Acredita que esta sétima visita coincidirá com uma mudança estrutural?

Nesta sétima visita está em cima da mesa, finalmente, a necessidade de começar a tratar das mudanças na máquina. Da alteração da estrutura. O Estado é um problema grande, embora não seja o principal, mas é o problema grande desta questão. Toda a gente tem as atenções centradas aí. Aliás, um dos objectivos deste livro é mostrar que a economia é outra coisa. Que a realidade das empresas é outra coisa. Temos que olhar para esse outro lado, onde ninguém está a olhar, e é aí que vão acontecer as coisas que nos salvam.

 

Fala muito em ciclos. Em que fase do ciclo económico estamos?

Ainda estamos no ciclo da descida. Os ciclos económicos não são regulares. E é importante referir isso. Agora é importante, também, perceber que acontecem sempre. Há épocas piores do que outras. Há épocas de doença - e penso que Portugal está numa situação dessas (é a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial), portanto não é um ciclo, digamos, normal. Agora é preciso perceber que aquela garantia que as pessoas tinham de que ia sempre tudo correr bem, contrasta com a realidade. A realidade é uma realidade de flutuação. Uma flutuação na melhoria das condições de vida. (Comparativamente com outras crises do passado) estamos todos muito melhores do que estávamos. Agora isso não quer dizer que não hajam pobres, flutuação, crises, falências. Isso faz parte da história de economia.

Temos oito séculos de crises financeiras de informação (que é muito utilizado neste livro e no anterior), para percebermos que temos que relativizar esta situação. A maior parte das pessoas está a dizer que isto é o fim do mundo, o fim de Portugal, o fim desta geração e isso é um disparate. Mas isso não quer dizer que não doa. E dói muito, claro.

 

Afirma no seu livro que "Portugal é socialista"?

É uma característica dos portugueses. Todos os partidos portugueses são socialistas. Todos eles querem o Estado, estão sempre a falar do Estado, só pensam no Estado, são socialistas - não no sentido estrito mas no sentido genérico.

Os portugueses fascinam-se com o Estado. Na maior parte dos outros países do mundo, as pessoas estão a tratar da sua vida. O Estado chega - umas vezes ajuda outras vezes complica - mas não é o agente central.

Portugal só fala do árbitro. Nunca chuta à baliza. Nunca fala dos jogadores. Os portugueses estão sempre a falar do árbitro. É assim no futebol, é assim na política, é assim na economia.

Tem vantagens. Tem inconvenientes. É verdade que depois desprezamos sempre o Estado. Ao mesmo tempo que estamos sempre a pensar no Estado, estamos também sempre a tentar enganar o Estado. Temos uma atitude ambígua perante esta realidade. É importante perceber que esta é a situação.

 

Isto de alguma forma pode afectar a restruturação?

Esta atitude que temos perante o Estado é absolutamente central. Há uma enorme quantidade de interesses instalados que estão a usar isso como chantagem perante o Governo.

 

Vão existir cortes nos funcionários públicos?

Nós temos um número de funcionários públicos que é absolutamente insustentável.

Portugal é um dos países que tem que resolver isto. Todos sabem, aliás as pessoas que estão na Função Pública sabem isso muito bem, que temos dos melhores funcionários do país no sector público e também dos piores. Depois quando chega ao momento de cortar toda a gente se esquece e logo se começa a demonstrar o contrário.

 

Mas vão existir cortes?

Já estão a existir. Os que estão a existir são os maus. O que se está a fazer é cortar a todos. Que é um disparate. Não se pode cortar os salários de todos. Mas é a maneira fácil. É má mas mais fácil.

 

Austeridade. Mais impostos?

Os impostos estão para lá do razoável, primeiro ponto. Segundo ponto, os impostos dão pouquíssimo dinheiro. Nós somos dos países que temos as maiores taxas de imposto e daqueles que recebem menos dinheiro em imposto. Isto está, aliás, provado no livro. E isto porque há uma enorme fuga aos impostos. Ou seja, há muitas pessoas em Portugal que estão a pagar impostos muito para lá do que seria razoável e há outros que não estão a pagar nada.

O problema não é de taxas, é um problema de base.

Houve melhorias nesse aspecto. Mas mesmo assim Portugal continua a ser dos países que tem menos receita de impostos, em particular sobre o trabalho (somos mesmo dos últimos dos 15 - 2010). Portugal é dos países que paga menos impostos sobre o trabalho e dos que paga mais impostos sobre o capital. Porquê? Porque a maior parte dos outros países não quer tributar o capital porque quer atrair o investimento.

 

 

AS 10 QUESTÕES DA RECUPERAÇÃO

 

As 10 Questões da Recuperação

Quem tem culpa disto?

i)A natureza das crises; ii) Afinal, o que é a crise?; iii) Então, a culpa não é do Estado; iv) Onde entram os corruptos?; v) A culpa, afinal, é minha?

Devemos sair do euro?

i) As culpas do euro; ii) Os limites do euro; iii) Medição do valor; iv)Moeda estável; v) O erro mercantilista; vi)A transição financeira; vii) A sobrevalorização; viii) Toxicodependência; ix) União monetária; x) Conclusões

Podemos repudiar a dívida?

i) Finanças e economia; ii)Repúdio de dívidas; iii) Almoço grátis; iv) A tragédia grega; v) Portugal deve falir?; vi) Valores em dívida; vii) Conclusões sobre a dívida

O que o Estado precisa de fazer?

i) Cultura política; ii) Portugal e a democracia; iii) O cancro da despesa; iv) O controlo orçamental; v) Desregulamentação; vi) O peso das rendas; vii) Haverá esperança?

Quem resolve a crise?

i) A cultura lusitana; ii) Descapitalização da economia; iii) Distorção da economia; iv) Evolução Social;v) Enfrentar a crise

A receita está a resultar?

i)Testes e alternativas; ii)A receita financeira; iii)A receita económico-social

O país aguenta?

i)A dimensão da recessão; ii)O peso dos impostos; iii)Fim do Estado- Providência?; iv)A reforma das leis laborais; v)Decadência populacional

O que está acontecer na Europa?

i) O sucesso da União; ii) A fragilidade da União; iii) O futuro da União

O que está a acontecer no mundo?

i) Três forças da globalização; ii) Impactes sociais; iii) Mudanças no valor

Quanto tempo dura a crise?

i) Valor das previsões; ii) Um novo resgate?; iii) Cem anos de solidão?

 

 

Data: 01/03/2013
Publicação: DIÁRIO ECONÓMICO (Notícia e vídeo on line aqui)
Autor: MAFALDA DE AVELAR

publicado por livrosemanias às 14:07
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