Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

"Em Portugal existe pobreza envergonhada"

Autor defende que a classe média é uma força transformadora que deve participar na mudança social e política

 

"A classe média é um segmento social que suscitou inúmeras polémicas e que, no actual quadro de austeridade, se encontra em risco de empobrecimento compulsivo". Estas são algumas das palavras que encontramos expressas no ensaio "A Classe Média: Ascensão e Declínio", da autoria de Elísio Estanque. Leia abaixo "quatro perguntas" ao autor.

 

Em Portugal existe pobreza envergonhada?

Existe. E o meu livro aponta vários exemplos disso mesmo, de resto, muitos deles relatados na imprensa. As famílias e os indivíduos a dada altura incorporaram um "status" de uma condição "remediada" e que mereceu a consideração (ou até a inveja) de conhecidos, vizinhos, familiares o que, agora, perante as dificuldades e carências económicas inesperadas, lhes coloca acrescidas dificuldades no plano psicológico. A imagem projectada para o exterior entra em conflito com a realidade de um orçamento familiar que já não consegue sustentar esse estatuto de desafogo. Por isso, em muitos casos recorre-se à assistência, mas isso é feito às escondidas por forma evitar o encontro com os grupos mais pobres e miseráveis com quem os que já foram (e ainda se sentem) membros da classe média não aceitam ser confundidos.

 

Em termos sociológicos - e económicos - é possível distinguir miséria de pobreza?

Diria que na pobreza, apesar das dificuldades e da "ginástica" que uma família pobre tem de fazer, ainda pode conseguir suprir as necessidades elementares, porventura com alguma ajuda (institucional ou caritativa), enquanto a miséria é já uma condição degradante do ponto de vista do bem-estar, onde as necessidades primárias não conseguem ser satisfeitas e, por isso mesmo, a miséria estende-se do plano económico para o psicológico ou até físico. Porque atrás da miséria está a fome e a doença.

 

Um País sem classe média tem tendência, a médio prazo, a "morrer"?

A classe média integra grupos muito distintos no seu seio. Mas não é só a questão financeira que conta. O empobrecimento de uns, a contenção e o risco de cair na penúria de outros, a revolta daqueles que, apesar das dificuldades, se possam aguentar ou ainda o fechamento em soluções individualistas de muitos outros compõem uma panóplia de possíveis reacções. Porém, as respostas desses grupos, desencantados e frustrados com o poder económico e político podem também derivar para a contestação colectiva, engrossando movimentos, protestos e revoltas mais ou menos radicais. Um contexto de forte descontentamento e de saturação face às instituições e aos agentes do sistema (partidos políticos) é propício ao surgimento de propostas salvíficas e a discursos populistas que podem resultar em ditaduras. E estas camadas descontentes podem servir de rastilho, arrastando consigo os desempregados e os excluídos que o eram antes da crise. Sem classe média nenhuma democracia consegue aguentar-se por muito tempo. Mas a classe média também atua colectivamente e pode ajudar a fazer revoluções.

 

Qual a importância deste sua obra?

Ajuda a compreender melhor o significado - passado e futuro - da classe média e a perceber a própria origem do conceito em termos sociológicos. Quero acreditar que quem ler este livro fique na posse de um conhecimento mais informado e uma perspectiva mais critica sobre a sociedade, inclusive que passe a olhar a "classe média" não só como uma categoria que aceita e adere aos princípios do mercado e da economia capitalista, mas também como uma força transformadora e que participa activamente na mudança social e política.

 

 

O AUTOR

Elísio Estanque

Trabalha desde os 16 anos. Formado em Sociologia pelo ISCTE-IUL, doutorou-se na Universidade de Coimbra.

No seu percurso constam que foi assistente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e fez parte da equipa do Centro de Estudos Sociais da Universidade.

Nome ligado à academia e à investigação, tem publicado bastante sobre temas como classes e desigualdades sociais, sociologia da empresa e das relações laborais, sindicalismo, juventude e movimentos sociais.

A sua tese de doutoramento foi sobre a indústria do calçado.

 

Data: 03/09/2012
Publicação: DIÁRIO ECONÓMICO
Autor: MAFALDA DE AVELAR

 

publicado por livrosemanias às 21:39
link do post | comentar | favorito
|


Mais sobre mim
Sobre a Mafalda

More about me
About Mafalda

Agenda
Agenda

África, Ásia e Brasil
Quer ir para Angola?

Around the World

pesquisar

 

Maio 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

Homenagem ao Professor Ve...

Sócrates perde para Astér...

'Jogadas' com Blatter e o...

Ondjaki vence Prémio Lite...

Moçambique, Astérix, cris...

Biblioteca de Papel no CC...

Gomes Ferreira continua a...

MBA júnior, inteligência ...

Sócrates, Soares e Lula ...

" O meu programa de Gover...

arquivos

Maio 2014

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

blogs SAPO

subscrever feeds